25 de setembro de 2016

Minecraft de retrete

Uma cidade?
O meu sobrinho mais novo está numa fase de algum interesse escatológico - não, não me estou a referir ao Apocalipse, ao tempo das Revelações. Em simultâneo, adora Minecraft - um videogame de construção em 3D no qual tem de conseguir recursos, construir, manter e defender o mundo criado por si. 
Veio ter comigo a correr, segurou-me na mão:
- Depressa, depressa, venha ver!
Diante da urgência, largo texto que escrevia e fui. Para minha surpresa, levou-me à casa de banho. Apontou a retrete e disse com orgulho:
- Tanto! Fiz uma cidade...

23 de setembro de 2016

A princesa dança, tem sapo ou descansa?

Posso jurar que há un agent provocateur por aqui... A princesa dança, tem sapo ou descansa?

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22 de setembro de 2016

Pró menino e prá menina


PRÓ MENINO E PRÁ MENINA
Teria doze anos quando a voz de Lena d’Água inundou rádio e rua com o refrão olha o robot, é pró menino e prá menina, olha. Nunca imaginei, foi viver no tempo em que poderia ter um robot. E não estou a falar do aspirador que circula pela casa a devorar pó e fios de tapete. Estou a falar de um senhor robot, um homem objecto, perdão, um andróide objecto, um robot sexual.
Lembra-se de Blade Runner? Pois bem, a empresa RealDolls ainda não lhe entregará à porta de casa a modelo básico de prazer que era a Darryl Hannah no filme, mas já despacha para todo mundo bonecas e bonecos de silicone com alto grau de realismo. Conto-lhe um detalhe, ou melhor, trinta. Trinta são as cores possíveis para os mamilos, trinta os tamanhos. Até a manicure é personalizada.
O passo seguinte é dotá-los de inteligência artificial. Como na letra da música: está pronto a ser programado, olha. Volto ao cinema.
Lembra-se do filme Her, em português Uma História de Amor entre um homem e o seu sistema operativo, aquela inteligência viva que falava com a voz de Scarlett Johansson?
Escolher um sexbot de qualquer natureza, à la carte, já não é ficção científica. E dizermos, ah, são bonecos, não são pessoas, em nada reduz a intensidade da relação possível. Basta ver a forma como nos relacionamos com os objectos: representam-nos. São extensões nossas. Olhe, como uma criança e a sua chucha. Nós e os nossos carros, carteiras, smartphones… são nós, não é?
O meu smartphone, pensamos, está ali, ao meu dispor, mas a verdade é que uma sms chega, um e-mail, uma chamada, e quem está ao dispor sou eu, somos nós, numa relação de co-dependência. Boa e má. Como todas as relações. Os nossos objectos inanimados estão vivíssimos. Tenho uma banda de fitness no pulso que me informa acerca de mim, dá-me os parabéns, solta foguetes quando atinjo os objectivos: é a minha cheerleader particular. Quando ela me faz a festa e eu lhe sorrio de volta, para quem estou eu a sorrir?
Agora imagine que conhece alguém dotado das características que mais a atraem: giro, culto, organizado, descontraído. Um pensamento que a desafia. E conversa, ri, alguém que a beija na boca e diz boa-noite, minha querida. Alguém por quem se apaixonasse. Não é assim tão difícil.
Quem é que nunca procurou um colega de escola no Facebook? É a tecnologia a facilitar e mediar o contacto social. No degrau seguinte a tecnologia cria e provê o contacto social. Agora, onde leu contacto social, leia sexual. Ou amoroso. Com alguém por quem se apaixonasse. Vê como está no advento da próxima revolução sexual? É a revolução sexual robótica, pró menino e pra menina, olha.

Publicado na Revista Epicur, Verão, 2016


19 de setembro de 2016

iRobot

Adeus colégio... Sou um robot!

Talvez não tenha tido ainda a oportunidade de contar que o meu sobrinho mais novo é, como direi, um tanto obcecado com o iPad, a carga do iPad, o carregador do iPad: ver a percentagem de bateria a descer, provoca-lhe vertigens - enfim, efeitos colaterais das liberdades ipádicas das férias de Verão que terminaram para seu grande desgosto. 
Todos os dias, desde o primeiro dia de aulas, pergunta se tem mesmo de ir para o colégio. Se não pode ir trabalhar com a mãe. Se não pode ficar em casa. Após uma semana de aulas, informou que já chegava e podiam ir de férias. Confrontado com a realidade, jogou as mãos ao rosto, e disse:
- Oh não...
Felizmente, chegou o fim-de-semana - este acabadinho de gastar. Sábado, às 07:02, portanto, dois minutos depois da hora a que se levanta para ir para o colégio, já em pleno acordo com a biologia escolar, pôs a cabeça dentro do quarto dos pais e sabendo que mãe tem um sono leve, disse baixinho:
- Mãe, porque é a noite dura tanto tempo? Já estou completamente carregado...
- Mas quem carrega são os robots!
- Uau, sou um robot?! Pensava que era um menino! Já não vou mais ao colégio...

17 de setembro de 2016

Os gatos querem dizer olá

OS GATOS QUEREM DIZER OLÁ

Saio de casa. Estou a abrir a porta do carro
e o gato no telhado baixo, em frente,
preto, olhos cinzentos, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem um ai de adivinha, 
imóvel, olha-me, aquela íris de fumo, 
e a pupila de fundo falso atrás de fundo falso:
onde acaba o ilusionismo começa a magia -
magia é amanhã da ciência, e ontem.
Chego ao quiosque. Estaciono. Saio do carro
e um gato no telhado baixo, o mesmo gato 
uns quilómetros abaixo? preto, olhos cinzentos
de fumo sem fundo, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem uma ai de adivinha, 
imóvel, olha-me. Ai o cabrão do gato, filho da ponte
Einstein–Rosen, mesmo ou outro, 
clone de si ou anti-matéria ao espelho.
Já não penso no Expresso. Nem na Magazine Littéraire.
Lixe-se a Le Point e o sábado impresso:
os gatos querem dizer olá.
Saio do quiosque, o saco de plástico do Expresso cheio, 
mas qual jornal ou provisões 
para o pensamento semanal decidido em editorial:
penso só no deserto do Arizona
a escorrer território Hopi e nas suas aldeias levantadas
e abandonadas, levantadas e abandonadas:
nómadas de Oríon, os índios, seguem a cintura de estrelas,
mapeiam o céu e no exacto ponto levantam casas de raízes de barro
e seguindo sempre as abandonam depois, fiéis às estrelas,
o céu primeiro, a terra, seu espelho, depois. 
Os índios Hopi esperam o regresso dos seus deuses siderais 
e enquanto isso assinalam com precisão de bordado 
portais nas suas janelas, telhados, quintais, 
wormholes por onde deslize a saudade, o tempo e 
a comunicação privilegiada, na primeira pessoa,
sem mediação de imprensa nem necessidade de carro ou felino.
Volto para casa. Desligo o motor. Mal ponho os pés no chão,
lá está ele, agora frente a frente, sem equívocos,
preto, olhos de fumo infinito. Pergunto-lhe:
que tal é viajar por um túnel de minhoca, 
menino gato mensageiro? Eu sei que estamos todos à espera.
Dos senhores de Oríon, como os Hopi,
ou da vinda de Cristo e da Parusia
em fogo e efeitos especiais de cinema, 
ou de Dom Sebastião, ou do Amor. 


Os gatos são mais espertos, não esperam, vão,
os gatos querem dizer olá.

10 de setembro de 2016

Setúbal, Coimbra e Freixo de Espada à Cinta

SETÚBAL, COIMBRA E FREIXO DE ESPADA À CINTA
Há dias maus,
tão maus, mas tão maus que, 
se não amasse a vida com gana, 
odiava-a.
Quem me dera chicotear aquele
grande cabrão que passa a tarde
a quitar o carro preto mate:
vidros pretos, jantes pretas,
um tubo de escape arrancado
a algum foguete de Cabo Canaveral,
e o paizinho reformado a assistir,
a assentir a bestialidade no passeio, 
os dois de tronco nu, um cheio de esteróides,
o outro cheio do filho. Depois vão para casa os dois.
Vejo cá de cima, o cabrão a urrar e a encher de porrada
o saco de boxe pendurado no limoeiro do quintal
e a encher de porrada e patada a cadela -
não sei como ainda não a matou. E puta da namorada,
cadela de outra espécie, faz o mesmo. Ó irmandade 
dos afectos… porra que só se consegue amar ao espelho!
Não sei o que é pior, se ser a cadela 
das bestas de carro preto quitado para o apocalipse futuro, 
ou ser o cavalo dum cigano que por aqui passa - qual cavalo?
pele a reboque de uns ossos, e vá de chicotada.
E era mesmo com esse chicote que eu os chicoteava de gosto,
ao filho, ao cigano e à cadela de duas patas.
Odeio não o fazer. Ou não fazer que não façam. 
E não o faço por falta de amor.
Não amo aquela trindade de filhos da puta.
Muito menos para os ensinar através do perdão – não há perdão.
Nem amo a cadela nem o cavalo o suficiente 
para chicotear a trindade de filhos da puta.
O amor vê-se. Eu podia roubar a cadela e o cavalo e fugir
com eles para Setúbal, Coimbra, e depois Freixo de Espada à Cinta. 
Mas não os amo, por muito que goste de pensar que sim.
O amor vê-se:
meu amor, minha querida, disseram-me os meus amores,
e puseram-me um par de cornos - é cá uma patada…
ou pior, uma chicotada de cigano, meu amor, minha querida, 
adoro-te, só gosto mais de mim e de um monte de gente antes de ti.
Ninguém me amou mais do que eu amo aquela cadela
ou aquele cavalo. Ninguém me amou e ponto final.
Talvez seja por isso que nunca fui a Setúbal nem a Coimbra.
Nem a lugar nenhum nem a Freixo de Espada à Cinta.

2 de setembro de 2016

A pequena ordem do meu mundo, amigo Demócrito

A PEQUENA ORDEM DO MEU MUNDO, AMIGO DEMÓCRITO
Eva saí de casa,
rua abaixo pelo Paraíso,
olho para cima, e à minha esquerda,
da varanda, um lobo olha-me atento,
e logo a seguir desvia o olhar
para os dois tigres que atravessam
lentos a estrada quente de tanto Verão.
Os incrédulos dizem, ó parva,
especialista em inutilidades,
na varanda está um cão e ali dois gatos,
tu não és Eva nenhuma e esta merda é o mundo
que temos, a puta da vida num dia
de calor a arder ao sol. E outros mimos.
Podia chorar. Dar-me trinta segundos de pena. Às vezes dou.
Mas contra o relógio para não amolecer a vontade, pois
em verdade vos digo:
cada um sabe onde vive,
não é preciso ser Lyca de Blake
para dormir tranquila entre feras,
nem é Lyca quem se perde ou se encontra,
é o Paraíso que se ganha quando nos ganhamos:
ninguém tira, ninguém pode tirar,
o que é nosso para ganhar.
Cada um é que sabe quem é.
Eu própria conheci um homem,
ele dizia ser Jesus, e quando eu passava no corredor,
ajoelhava-se, segurava-me as mãos, chamava-me mãe,
santa maria, visão do céu vestida de branco.
É certo, tinha diagnosticada uma esquizofrenia
e estava descompensado, mas quem raio era eu
para lhe dizer tu não és Jesus, só pude dizer-lhe,
não sou tua mãe, e segurar-lhe nas mãos também
para que se levantasse, e começar a partir daí uma conversa -
somos a mesma matéria, não é?
Quem diz uma conversa com este homem, diz com o mundo.
Descobrir com ele, o homem, se ele é Jesus, quem é, que nome tem,
as mãos que trouxe para fazer a vida.
Descobrir com o mundo o que é o mundo.
O que são estes quatro e tal por cento de mistério cognoscível
e os noventa e cinco por cento de mistério absoluto.
Um verso de cada vez.
Porque não sou Demócrito. Não me entregaram aos Magi
para aprender, não tive mestre Leucipo, nem calcorreei
pérsias, babilónias, nem egiptos nem índias de sabedoria,
e quais grécias? Mal deixo esta cadeira…
Tenho pouco mais do que a mim - um pouco de ti, talvez.
Mas rio, e se rio como o meu amigo Demócrito riu, sem relógio,
e ainda só fui à rua de baixo aqui do Paraíso.
E Eva saí de manhã,
vi um lobo na varanda,
dois tigres na estrada:
fazemo-nos domésticos por amor,
fazemo-nos pequenos para que seja grande
o que o nosso amor ilumina: um filho, um homem, uma cidade,
uma ideia, uma obra, uma civilização.
Como a dádiva do Lobo ao Homem,
fê-lo dono, fê-lo amo, fez-se cão.

1 de setembro de 2016

Sagrado Coração, a vida é uma coisa, o amor é outra

E de ouro e prata cobrirei o seu manto...

SAGRADO CORAÇÃO, A VIDA É UMA COISA, O AMOR É OUTRA
O filho era alto, o filho era forte, o filho era seu. Desde o primeiro instante soubera que estava de esperanças e daria à luz aquele filho - no Alentejo de então, uma senhora não engravidava nem paria. E soubera de imediato que era um menino, e seria um rapaz, um belo homem, o seu contentamento.
Já tinha uma filha. Esguia e esperta. Porém com uma fraqueza que decerto fora buscar ao pai. Via-se à légua que um homem havia de fazer dela gato e sapato e por isso era preciso ataviar-lhe bem o pensamento, enchê-lo de tudo quanto a fortalecesse, a armasse para que nesse dia por vir, e viria, não se partisse como a vida – não se partiu.
Custou-lhe horrores separar-se daquela filha e enviá-la para fora, para um colégio em condições, mas tinha de ser e só Deus sabia o quanto lhe custava. Se uma mãe vê a fraqueza de um filho e nada faz, merece o filho que tem?
Para o pai a filha não tinha defeito. Podia ficar ali, ir com ele espreitar a madrugada nos campos.... Que orgulho tinha nela quando fazia dançar os cavalos, quando espreitava os curros e dizia, este é uma besta linda de força, ó touro preto. Podia ficar ali, dedicar-se à dressage, ou fazer-se veterinária, gestora, economista, enóloga, não casar nunca, ser o seu braço direito e o esquerdo, enfim, o que quisesse. Mas a mãe que não, não que ela era fraca, tinha uma moleza de coração que era preciso fechar ou havia de dar cabo dela.
O que é isto que as mães sabem? Que além conseguem ver?
E ele, está bem Maria Antónia. Nunca em tempo algum conseguira dizer não à mulher. Baixa, magra, elegante. Desprendia-se dela uma força que punha as criadas a chiar sem dizer um ai. Dava conta de tudo. Metia-se em tudo. Naquela altura ganhava-se uma miséria na apanha da azeitona, na cortiça... O campo ou era patrão ou era miséria. Homens e mulheres chegavam a pé, um quase nada no farnel, subiam para a camioneta, os capatazes de marmita e más palavras e aquilo revirava-lhe o juízo.
Pôs tudo a mexer. O padre, devota como era, com livro de cheques aberto, que sim, que sim, pois com certeza, a caridade era a obra do cristão. Qual caridade? É um dever! Que sim, precisamente, um dever e uma virtude. Qual virtude? O privilégio vem com a responsabilidade. Se não a conhecesse havia de julgar que o comunismo lhe andava no sangue. Qual comunismo? Benza-o Deus que só diz disparates. Era assim, atrevia-se a abençoar o padre. Fosse como fosse, um camião de caixa aberta passou a ir deixar os meninos à escola de lancheira cheia que ela não admitia que os filhos dos seus trabalhadores comessem a fome e a reguada destinada aos pobres. Nem que as meninas em vez de irem para a escola fossem para a costura. Isso é que era bom. Com os seus trabalhadores, não, que ela era mulher e sabia muito bem o que era ter por pai, um homem que não distingue uma mulher duma égua.
O marido bem lhe apontava este excesso de possessivos: os meus trabalhadores, as minhas crianças, a minha escola, o meu gado, o meu fruto. E ela arrematava, pois se Deus mos deu, quem os há-de cuidar? Não tos deu, emprestou-tos. Que nós morremos, Maria Antónia, e a terra fica.
O certo é que era adorada. Era mãe e era juiz e palavra de lei. Quem entrasse pelos portões da herdade, o que queria era não ter de sair, que pertencer a alguém assim parecia melhor do que ser livre. O que era lá isso de ser livre de barriga vazia e uma fila de filhos de boca aberta?
A ideia de reforma agrária ali não criava raízes. Nem quando apareceu por lá, ao calor de Agosto, José Augusto, ex-estudante de engenharia com passagem secreta por Moscovo, agora a caminho da clandestinidade pela via iniciática do Alto Alentejo.
Nessa altura, Ana, a filha mais velha, depois de anos de internamento na Suiça e do surpreendente curso de medicina, de onde lhe viera a veia? anunciara que pretendia especializar-se em psiquiatria. Aquela medicina sem Deus, sem vísceras, sem sangue, sem cabeceira de doente arrancado à morte à força de tubos e bisturis, parecia à mãe menos medicina. Para mais era uma medicina sem Deus: se a cruz de Cristo era nítida e limpa nas paredes das enfermarias, nos gabinetes dos psiquiatras não estava a imaginar que lá houvesse alguma. Ó mãe, mas onde é que vai buscar essas ideias? Então essa gente não é tudo judeus? Pensarás que não leio essas porcarias? Leio tudo. Tudo que o mundo não me passa ao lado. Isso é lodo, se aí entras não sais que não está feito para se sair, está feito para afundar.
A vastidão das planícies e o céu aberto sufocavam Ana. A mãe, aquela mulher pequenina, sufocava-a mais do que as planícies, estendia-se mais do que o céu sem fim. Era isso. A mãe era aquele céu sem fim e até ao chão. Nunca, nunca havia de voltar para Portugal. Se não fosse o pai nem nas férias viria. E o irmão. Adorava o irmão.
O irmão era piloto aviador. Na Força Aérea, pois claro. Tenente. O menino dos olhos da mãe. Fazia razias por cima da casa grande, de cabeça para baixo, um pássaro brincalhão, para dizer olá à mãe que sufocava de orgulho daquele filho todo igual a si, mas melhor, e dizia ao marido, João, diz ao teu filho que não quero loucuras, onde já se viu, arranca-me as telhas. Adorava. Tinha o grande oratório de casa todo em luz, velas, lamparinas noite e dia, um jardim aos pés dos anjos e Santos, Santos Apóstolos, e à cabeça, Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Era um móvel imenso, aquela cómoda-oratório oitocentista, uma coisa feia do tempo de Dom João V, ostensiva no seu rococó flamejante, entalhado, ricamente dourado nas quatro gavetas, na grade por cima, lacado e pintado nas portas, e outra vez dourado por dentro. Um monstro refulgente que cuspia luz e fogo nos olhos de quem entrasse na sala.
Na igreja da sua devoção Maria Antónia era igual. Nada faltava jamais no altar de Nossa Senhora da Conceição. E, para atestar a sua humildade, ela própria limpava com as suas mãos cada voluta entalhada de barroco dourado, e ai se do manto bordado a ouro e prata se desprendesse um fio, ela, era ela que o bordava. Para alguma coisa tinha servido a educação de égua a que o pai a obrigara: se quisesse desenharia, se quisesse bordaria, se quisesse tocaria piano e cantaria, comporia arranjos de flores de pasmar. Não queria nada disso, nada disso fazia. Só bordara a primeira roupa dos filhos para o primeiro dia sobre esta Terra, o primeiro lençol. O resto, só pelos anjos e Santos e Nossa Senhora da Conceição.
Nesse Verão tórrido, Ana conheceu José Augusto que andava numa acção de consciencialização mal sucedida na quinta. O povo resistia-lhe, não se sentia oprimido nem explorado pelo patronato por mais que ele lhes demonstrasse por a mais b que sim, e da pior maneira, eram escravos de boa-vontade.
Não inflamou os trabalhadores mas incendiou a filha dos opressores de tal maneira que lhe fez um filho que ela, moderna e socialista, havia de parir. Adeus psico-França, olá Portugal. Como eram ambos independentes e contra a exploração do homem pelo homem, só aceitaram de presente um apartamento amplo, arejado e bem mobilado na Avenida de Roma, seis assoalhadas, duas casas de banho, quarto independente para empregada ao lado da cozinha e uma mesada – o que ela ganhava no hospital ainda sem a especialidade era nada, e ele voltara à engenharia no Técnico por artes mágicas e sem a polícia nos calcanhares e vagamente cuspido pelos camaradas. O comunismo era o estado primitivo do socialismo. E pronto.
Infelizmente, conforme a mãe vira sabe-se lá como na infância da filha, aquele marido com uma mulher atrás de outra, era a sua fraqueza exposta à luz de Freud, Bion e Klein, a sua própria santíssima trindade, sem lamparinas nem velas e pelas estantes em lugar do oratório – cada um organiza o céu e a terra e os dias entre eles como pode e sabe. Mesmo assim, aceitando ela aquilo, porquê? três filhos e inúmeras amantes depois, o marido deixou-a por uma colega. Nem sequer mais nova. Estava farto da filha adolescente que o fizera avô antes de tempo, toxicodependente para além de qualquer psicomerda que a justificasse e os outros dois não precisavam dele, eram orientados. A mulher fizera-se avó porque não aceitara, por respeito à trindade, ser mãe do filho da filha. Se a mulher não se abalava, se a mulher era um pilar resistente a tudo e que tudo explicava, ele estava farto, farto, farto. Quem tinha razão era a velha. Era doida mas não era maluca. Devia ter encarcerado a filha até lhe sair do sangue e do pensamento a vontade da droga. Agora a andar de centro de desintoxicação em centro de desintoxicação, e nada, o pai do seu neto na alheta, outro drogado, não podia mais. Estava farto. Farto da superioridade da  mulher, farto dos filhos, do neto pequeno no berço a berrar a ressaca da mãe.
A velha doida era nem mais nem menos do que Maria Antónia.
Em 69 o filho fora para Angola. Contra a sua vontade de mãe. Dissera ao marido, vamos ficar sem ele. Cala-te. E foi a primeira vez que a mandou calar. Ele vai fazer uma guerra que não quer: não o ouviste dizer que a descolonização tinha de ser feita? Ouviste ou não ouviste? Não percebes que vai contra ele mesmo matar gente que está a lutar pelo que é seu? Não o ouviste dizer do embargo de armas da ONU? Não percebes que por causa disso os aviões que temos são uma merda e os russos não andam a brincar? Maria Antónia, acalma-te! As coisas não são assim tão simples… a mania que tu tens de simplificar tudo até ao osso. São exactamente assim. Faz qualquer coisa, estou-te a dizer para fazeres qualquer coisa.
Ele não fez. O ultramar também era dele. Fez ela. Gastou o genuflexório que tinha diante do oratório. Na igreja, o altar de nossa Senhora da Conceição luzia de ouro, de chamas, de flores.
Quando soube que o filho tinha sido abatido, não chorou uma lágrima. Mas foi um horror para uma assistência muda e imóvel. Tirou da parede os registos, mesmo os que herdara da sua avó, os da sua mãe, atirou-os ao chão, pisou-os. Arrastou ela mesma o oratório até ao alpendre e depois mais para diante. Atirou-o ao chão a gritos e pontapés. Pegou em cada Santo, anjo, Apóstolo, Nossa Senhora amada, e insultou-os de tudo quando sabia e até do que nem sabia conhecer. De traidores, desalmados, merdas, incapazes, filhos da puta amaldiçoados para todo o sempre. Pegou-lhes fogo. Ardam! Vestiu-se de preto e nunca mais dirigiu a palavra ao marido que comeu o desgosto com o silêncio, voltado cada vez mais para a filha e os netos.
Quando a filha lhe foi mostrar o bisneto, veja mãe, o menino, olhou-a nos olhos e disse-lhe: não aprendeste nada com a morte do teu irmão? Devias ter levado a tua filha a fazer um aborto, devias tê-la fechado até que o mal lhe saísse do sangue e da cabeça. Mãe, como é que é capaz de dizer isso? É uma vida. Não aprendeste nada: a vida é uma coisa, o amor é outra.