21 de fevereiro de 2018

Bonjour Mundo!




[...]
Mas a gente gosta quando uma baiana requebra direitinho,
de cima e em baixo, revira os olhinhos
e diz eu sou filha de São Salvador!
[...]
Ôba! Salve a Bahía, Senhor!

15 de fevereiro de 2018

Escola de Santidade

ESCOLA DE SANTIDADE

Talvez eu tenha sido como disse Paulo:
não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.
Talvez tu tenhas sido como foi Pedro:
jamais me negarias para logo me negares, e mais uma e outra vez.
Talvez os santos nada tenham para nos ensinar.
Talvez o coração nada tenha para aprender.

10 de fevereiro de 2018

Nem fogo nem fogão

Meu amigo Vinicius, leia com seu sotaque, perdão, sutaqui,
esta não-feijoada para sua "feijoada à minha moda"

NEM FOGO NEM FOGÃO

De quando em vez,
alguém me sabe e tudo compreende:
agora mesmo,
teu poema de feijão, rede e gato
para passar a mão -
teu mesmo, Vinicius, pois então.
Porém, olha a falha, sem Cão...
Minha moqueca, minha histórica feijoada,
hoje são nada,
nem cozinho mais.
Se me perguntares,
que é isso menina,
assim, onde vais?
A ti, meu amigo, pergunto-te eu,
e tu, onde estás?

9 de fevereiro de 2018

Amor de sempre e para sempre, não estás

AMOR DE SEMPRE E PARA SEMPRE, NÃO ESTÁS

Meu Espírito, Minha Carne,
Meu Nome para a Alegria,
Minha Porta para o Amor,
Meu Amor:
não se pode amar sozinho:
a escuridão existe
e tu não estás aqui.

8 de fevereiro de 2018

Não acordes...

Não acordes...

Nas fases profundas do sono não se devia acordar com memória do sonho onde estávamos: quem é esta pessoa que nos habita enquanto nós dormimos? E vive aquilo que jamais viveríamos? E num mundo com outras leis, a natureza com outras regras, noutras paisagens, com inconcebíveis comportamentos, detalhes de Bosch. Agora que penso nisto, pergunto-me: Bosch acordaria onde eu acordei esta noite? Os Uruk hai, de Tolkien, e as suas armas do tempo do ferro, terão despertado a meio da noite? Os sonhos não se podem contar ou acaba-se numa cama mais ou menos freudiana.

Não se anda por entre estes lugares antigos como o homem, por entre a violência e o sangue, sem que eles se agarrem a nós.

Estava a beber café, a pensar em tudo, há dias de pensar em tudo e calhou ser hoje, quando vi. Na mesa em frente ao sofá tenho uma caixa chinesa de madeira de cânfora. O fecho partiu-se muito antes dela chegar às minhas mãos. Não tem fecho. Num dos cantos, vê-se a massa de um restauro mal sucedido. Teve bicho porque está miudamente esburacada. E a tampa está empenada do lado direito - não fecha completamente. Foi quando vi. Um quase nada inicial, pensei que fosse um reflexo da luz... Um fio vermelho, muito fino, escorria da caixa: o sonho de sangue saiu do sono e, subtil, materializou-se ali. Pego-lhe. Dentro da caixa tenho cartas, postais risonhos em caligrafia amorosa. Palavras que cabem na alegria em pleno sol. Disseram-mas e eu guardei-as. Tive um amor feliz. Fui feliz. E atei-as bem com uma fita vermelha para não irem a lado nenhum - depois do amor morrer, as palavras, como o corpo, são matéria do pó. A fita desfiou. E o fio, tão fino, transbordou. O sangue, contido, é vida. Derramado, é morte.

Uma caixa vazia no meio da casa? Talvez sirva para guardar os comandos e outras peças de quotidiana relojoaria. Não faz mal. Seja como for, os dias estão maiores, a luz dura quase até à noite e isso, toda a gente sabe, é o princípio das maravilhas.

4 de fevereiro de 2018

Os navegantes

OS NAVEGANTES

Povos, nações, línguas, é isto:
há muito tempo, tanto,
sei que foi comigo porque o meu corpo estava lá,
nas catacumbas de Cecília ou Calisto, nem recordo,
foi quando, de repente, uma pintura hedionda
se me agarrou ao pensamento.
Não queria nada daquilo -
teria preferido estar à superfície, a Roman Holiday, de braço dado com Wyler
e Gregory Peck, três a passeio. O gosto do riso. Mas não.
Foi, como tudo, como tinha de ser.
Isto:
três homens jovens num forno em chamas.
E um quarto, um anjo, por trás.
Fui catolicamente educada.
Um católico não conhece a Bíblia para trás e para diante
como um protestante de igrejas de paredes vazias
e mãos transparentes para um comércio opaco.
O católico não prega o evangelho da prosperidade.
Se é verdade que conheço a Bíblia, e conheço, é
só pela mesmíssima razão que leio Borges ou Rumi.
Nabucodonosor - nave que Matrix popularizou,
Nebuchadnezzar,
and unclean spirits, when they saw him,
fell down before him, and cried, saying,
Thou art the Son of God, Neo, claro, o novo construtor
do homem e dos jardins suspensos da realidade - Nabucodonosor, rei,
mandou que ardessem os três homens por não se submeterem
à sua vontade. E porque não queimaram, os elevou.
Povos, nações, línguas, então é isto:
rodeados de fogo por todos os lados
ou qualquer que seja o nome do mal,
fome doença solidão,
escolhemos: ou o mal nos abraça
e perecemos
ou uma força maior o abraça a ele,
e o derrota quando o beija na boca.
 E se perecermos, perecemos.
Pompeu, Petrarca, Pessoa:
navegar é preciso, viver não é preciso.
Um amigo meu, também de Nebuchadnezzar,
navegador de arenas, praças,
pegava touros e um dia foi colhido,
seremos todos, não há vida sem ceifa,
e o nome e a razão da semente,
só a semente e o Espírito nela o sabem,
seja como tem de ser,
apanhou uma valente cornada,
atravessou-o. E voltou a pegar. Já no hospital tinha dito:
pois quando morrer, vou de mãos no peito e barriga para cima.

28 de janeiro de 2018

RESET

RESET

Não há plano.
Não há sonho.
Não há futuro.
Só há agora:
 de hora a hora
até o passado se desfaz.

27 de outubro de 2017

Uma palavra chega

uma palavra chega

e às vezes, nem sabemos o que nos faz falta até o recebermos, do nada. Um pequenino acto de bondade. Estou a escrever e percebo que ainda estou a pensar em Stig Dagerman. Explico.

Cheguei. O natural cansaço da mudança. Adoecer. Não recuperar bem. O inesperado. Mil e uma coisas para organizar. A placa da cozinha não funciona. O exaustor tem de ser arranjado. A secadora também. Afinal, não, não compensa o arranjo. Tem de vir uma nova. O congelador não tem conserto. Vem outro frigorífico e descubro que previno uma infiltração - nem todo o mal é mau. A cozinha inoperacional durante quase um mês. Uma das bocas da placa nova não funciona. OK. Não vem mal ao mundo. Assistência técnica já na próxima segunda-feira. Estou contente com o papel do passarinhos. O montador é pontual. Prepara as paredes, faz as marcações. Abre os rolos. É papel pintado. Está manchado de cima abaixo. As paredes já estão lixadas e numeradas. Devolver. Reclamar. Esperar. A minha galinha do sal foi-se. Fui comprar outra. Já não fazem, ou, pelo menos, na Bordallo da Guerra Jungueiro não a têm. Guerras perdidas não. Amor aos objectos? Talvez. Também são memória. Trago um ananás para o sal. Mudar. Cabeleireiro, manicure. A seguir à Bordallo, faço mais não sei quantos quilómetros a subir e mais não sei quantos a descer para chegar perto da Igreja de Campo de Ourique. Acertar datas e detalhes. A casa é-me, sempre me foi, o X. O lugar onde. E trabalho em casa. E de repente, diz-me:
o electricista já trabalha connosco há um ano... E sai-me antes que conseguisse fechar a boca:
- preciso que corra tudo bem, já não posso mais. E foi nessa altura que acrescentou:
- sabe, mudei-me para minha casa há quase dois anos. O construtor ainda não mandou fazer algumas das reparações - uma mudança é difícil. E foi só isto. A centelha de bondade. E eu respirei fundo. Uma palavra chega. Foi um consolo. E então Stig Dagerman e o pequeno ensaio "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer". 

Stig Dagerman, abandonado em bebé pela sua mãe, esperava a cada momento que ela regressasse. Pior. Esperava que ela regressasse em cada carro que passava na rua dos seus avós, com quem vivia, que saísse do carro a correr na sua direcção, de braços abertos, e os fechasse em volta do seu corpo. Nunca aconteceu, claro. Nunca acontece. Em algum momento, e quase sempre no pior, todos fomos abandonados. Alguém nos morreu. Alguém foi embora. Alguém nunca chegou. Em algum momento todos esperámos o milagre do regresso, não interessa de que janela. Stig Dagerman dizia que isso, a falta de consolo, tornava a felicidade impossível. Essa impossibilidade devorou-lhe a vida tanto quanto lhe fez a obra: nada se constrói sem vazio, é preciso que algo não esteja para haver espaço para que algo esteja. É assim. É o copo vazio que contém a água. É a página branca que se enche de letras. É o baldio que dá lugar ao edifício. É sempre o vazio. É uma condição da criação abraçar o vazio, olhar a morte nos olhos e dizer eu sei. Estar só. É uma condição da existência. Tem de se ser feliz mesmo de coração mastigado. Este é o imperativo não circunstancial: apesar de. Porque o sofrimento também é uma condição da existência. 

Quando entrei casa, sentei-me no sofá. Nem música nem televisão. Lá em cima, o vizinho tocava piano e tropeçava no mesmo passo. Insistiu. Falhou. Insistiu. Os miúdos corriam e gritavam, e mais movimento, arrastar, deixar cair, o piano perdeu o pio quando o pai começou a falar com os filhos. Há uma família aqui ao lado e lá em cima. A minha casa tem camadas de silêncio: tout doucement, sans faire de bruit. Depois andei pelas estantes à procura do Dagerman. Nada de "Consolo" nem de "Vestido Vermelho" nem de coisa nenhuma. Talvez tenham ido na virada com tudo resto que só Deus sabe e nunca regressará. Fui até à cozinha, abri a janela, tão bonita a vista à luz da rua, puxei a cadeira para perto do parapeito, estiquei as pernas e fiquei ali na semi-obscuridade, só a existir enquanto bebia um descafeinado. Se calhar a felicidade é isto.